A ORIGEM DO CARNAVAL DE RUA NO RIO DE JANEIRO por Eduardo Fauzi
Na década de 90 não havia Carnaval de Rua no Rio de Janeiro. Aquela galerinha bacana, bem nascida, pessoal de classe média, todos nós, a gente sempre viajava no Carnaval.
O destino mais comum era Região dos Lagos, na casa de alguém. O pessoal da grana ia pra Bahia, claro, mas Búzios, Angra, até Iguaba valia. Região Serrana com bailes no Qiitandinha. O que não valia era ficar no Rio.
Cidade vazia, gente perigosa nas ruas. Sambódromo só pra turista... ou pra galera da televisão e dos camarotes da Sapucaí.
Claro, tinha blocos tradicionais, Bola Preta, Cacique de Ramos e esse tipo de bloco "baixa renda". Perigoso e chato.
"Você vai pra onde?" era a pergunta que todo mundo fazia e se você dissesse "nah... vou ficar no Rio, mesmo" todo mundo te olhava com cara de "tadinho".
Aí uma galera maneira do Instituto de Economa da UFRJ, o I.E., na Praia Vermelha, decidiu que Carnaval não era só Sambódromo e resolveu criar um bloco universitário... o Ih, É Carnaval. O primeiro de todos os blocos de Carnaval que infestariam a Zona Sul carioca nos anos seguintes. Sim, porra, a gente inaugurou o movimento.
Ficou acertado que o desfile ia ser num sábado antes do Carmaval, porque... a gente tinha que viajar, né?
Resistência cultural, caralho. Marchinhas de Carnaval da época dos nossos avós. Jorge Bem, Clara Nunes, Dona Ivone Lara... resgate do Brasil Profundo. Geral empolgado.
Fizeram, desde o início do ano, uma vaquinha para comprar os instrumentos da Bateria e ainda contrataram um Mestre de Bateria para ensinar aquela pleiboizada toda a tocar de forma correta.
O nome do cara era Mestre Faísca. Faísca porque ele era, assim, nervosinho. Vinha lá de Madureira.
Era UFRJ antes das cotas. Só galera do Santo Inácio, Santo Agostinho, São Bento... pessoal inevitavelmente branco e bem nascido, numa das melhores faculdades de economia da América Latina e que formaria os economistas que ditariam os rumos de nosso país.
As aulas de bateria de Mestre Faísca eram duas vezes por semana e ele não escondia o preconceito reverso. O ódio de não ter nascido branco e pleibói que ele descontava impiedosente nos alunos que o tinham contratado pra aprender percussão com ele.
Esporro atrás de esporro. "Vai tomar no cu, seu burro". Era de viado para lá, filha da puta pra cá. Empurrões e xingamentos. Os estudantes tinham medo, claro.
Era baixinho mas, além de fisicamente forte ele era, diziam, irmão do "dono" do Morro da Serrinha
Eu até ajudei com a caixinha mas nunca fiz as aulas de percussão. Já tava formado, não ia mais ao Campus, só precisava entregar e defender a minha monografia.
Faísca era famoso por humilhar os alunos. Se ele visse que tinha um casalzinho de namorados fazendo a aula? Porra... fazia o cara de tapete na frente da namorada. É... ele tinha problemas. Complexado pacaralho.
O dia do Desfile chegou e eu Arranjei o Trio Elétrico que era de propriedade do MV-Brasil, uma organização política, um círculo cripto integralista do qual eu era uma das sub lideranças e que foi fundado pelo meu irmão Wagner do MV-Brasil.
Ele emprestou muito a contragosto o Trio Elétrico que era propriedade do movimento, mas disse "cuidado, esse é o nosso maior patrimônio e nosso meio de atingir as massas"... uma época sem redes sociais.
Em cima do Trio Elétrico somente quem ia cantar e tocar o cavaquinho, Rick Jr., Rafinha, Waldez... gente amiga, galera boa.
A bateria da pleiboizada comandada pelo Mestre Faísca ia na frente do Trio Elétrico pela Av. Pasteur, fazendo retorno na Praia Vermelha e, na volta, dispersando do DCE da UFRJ.
E eu? Eu era o dono da porra do Trio Elétrico e era o Mestre Sala. A Porta Bandeira foi a Priscila Narizinho. Belíssima, com sua beleza aristocrática mexendo com a libido dos alunos.
Fizemos umas aulas particulares com um amigo meu, passista, e, sendo bem modesto, a gente tava demais dançando juntos.
Ela namorava o Chofra, amicíssimo meu... e eu respeitei os dois em cada momento em que a gente se encontrava sozinho, por horas, para ensaiar. Porque sou homem de honra. E os dois, ambos meus amigos, sabiam disso.
Saia Rodada Amarela, gatinha, carinha de bebê. Priscila aprendeu a sambar e a bailar equilibrando a Bandeira do Bloco e ficou maravilhosa no papel de Porta Bandeira.
No Dia do Desfile eu pedi a um camarada integralista que tomasse conta da porta de entrada do Trio Elétrico, que era por detrás, porque, claro, se todo mundo, já doidão de cerveja, quisesse subir, o Trio Elétrico iria acabar virando.
"Não se preocupe, pleibói nenhum vai subir aqui, vai ser fácil", ele me disse, se garantindo nos bíceps dilatados.
Fácil? Quase... na hora da concentração houve bate boca. Mestre Faísca queria que uns amigos dele subissem e assistissem o desfile de cima do Trio Elétrico. O meu amigo e dublê de segurança, obedecendo ao que eu pedi, não deixou.
Faísca ia comandar a bateria do chão, claro. Tava todo pimpão. Terno todo branco, sapato branco e gravata vermelha.
E esse meu amigo, qie era segurança na escada de acesso ao Trio Elétrico, muleque forte, metido a lutador, ficou apavorado quando o Mestre Faísca deu lhe um esporro que ecoou por todo o Campus.
Silêncio. A música parou. Mestre Faísca disse que na porra do Trio Elétrico ia subir quem ele quisesse. Que ali só tinha viado e "sai logo da frente, pleibói filha da puta".
Faísca disse que era irmão de bandido, claro. Que ia ligar pra não sei quem e ia mandar matar geral... a música parou. Todo mundo, umas 500 pessoas olhando o showzinho do Faísca.
E o Mestre Faísca gritando com sua voz de barítono todo o seu ódio contra o rapaz que ousou lhe dizer que seus amigos não podiam subir porque era ordem... do Fauzi.
"Quem é esse merda desse Fauzi?" perguntou o Mestre da Bateria.
E aí eu cheguei. Silêncio absoluto. 400 pessoas olhando a merda que podia dar.
"Eu sou o Fauzi" disse olhando ele nos olhos.
Ele respondeu "E eu sou o Mestre Faísca, seu pleibói de merda. E meu irmão é o dono da Favela e eu Moro no Morro da Serrinha"
Eu sorri, Olhei na cara dele e disse "tu mora mal pacaralho".... e, na frente de umas 400 pessoas larguei a segunda tapa mais bem dada que eu já dei na minha vida... na frente da bateria que ele treinou e na frente do resto dos alunos do Campus.
A tapa desceu de surpresa, em cheio e estalado por dentro da cara e o estampido foi mais alto que o surdo da bateria que ele comandava.
Perdeu o norte, deu uma meia volta e caiu, apoiando a mão e sujando o terno branco na altura dos joelhos. Levantou com ódio no olhar estrábico e sede de sangue...
Gritaria, galera do deixa disso. Separaram uma briga que eu adoraria que não separassem. Ele me olhou com ódio e disse "eu vou comandar a bateria. Mas vou ligar pro meu irmão... e quando o desfile acabar, tu tá morto pleibói de merda"
Eu respondi "ótimo. Liga pro viado do seu irmão e manda ele vir aqui. Vai ser mais um pra entrar na porrada. E quando ligar pra ele, não deixa de avisar que eu falei que ele é viado"
Geral aterrorizado. Tumulto gritaria. A essa altura o pessoal presente já não escutou meu recado. Aí peguei o microfone e coloquei ordem na porra do desfile "bateria se concentre na frente do trio, o desfile já começa... e Mestre Faísca é viado"
Mais confusão. Me fizeram jurarar que eu não iria desfilar na frente da bateria junto com a priscila pra não "ofender" o babaca do Faísca e eu, claro, concordei dançar atrás do Trio Elétrico, onde não havia ninguém.
Priscila ficou triste. "Ninguém vai ver a gente..."
Não vai é o caralho. Concordei que não iria hostilizar o Mestre Faísca só para que ele começasse a trabalhar e na hora que o desfile já tivesse começado, eu pegasse a Priscila pela mão e fosse bailando pelo meio da multidão até a frente da Bateria... e bailasse bem na cara dum Mestre Faísca cheio de ódio, vontades de sangue e que, claro, desapareceu assim que o desfile acabou.
Escapou de apanhar. Meu plano era desfigurar a cara dele e tomar o paletó branco que ele usava. Não deu. Sumiu junto com a noite.
O Desfile foi um sucesso, quase 8 mil jovens bonitos e bem nascidos acompanhando o desfile, se amando, se beijando, e celebrando a cultura brasileira... que não tem cor, nem raça. Só paixão.
Faísca foi demitido do posto de Mestre de Bateria do Bloquinho Universitário e eu nunca mais fui chamado para Mestre Sala e o desfile do Ih, É Carnaval, que teve e ainda tem várias edições. Infelizmente já não sou mais bem vindo por lá...
Esse desfile, de mais de 20 anos atrás, é que verdadeiramente inaugura o fenômeno que viria a ser Carnaval de Rua no Rio de Janeiro... que virou essa potência e engoliu o Carnaval de Salvador.
E se eu escrevo essas linhas é pra deixar HISTORICAMENTE REGISTRADO que o Carnaval de Rua do Rio de Janeiro renasce ali, com o bloco organizado pelos estudantes de Economia da UFRJ.... e pelo tapa, QUE EU DEI, na cara do nosso "Mestre".
Naquele dia ele foi dormir com a cara mais quente que o surdo da bateria que ele comandava.
Mais de duas décadas se passaram e nunca mais vi o famoso Mestre Faísca, até que me mandaram ontem uma foto dele. Com o Waldez.
Dez ou quinze anos depois desse icônico tapa, na saída de um forró no Clube dos Democráticos, um rapaz jovem e bem apessoado, que eu nunca vi na vida, me pára e fala "Fauzi? Eu só queria te agradecer por aquele tapa na cara do babaca do Faísca. Vou o tapa que todo mundo queria dar mas tinha medo. Ele me humilhou na frente da minha namorada e você acabou com a marra dele. Obrigado". Mais uma boa ação pro meu currículo.
Abaixo o Waldez, entidade etílica que paira pelos becos e vielas de todos os carnavais... e o Mestre Faísca.
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