A PRISÃO DO BOLSONARO E A DO EDUARDO FAUZI por Eduardo Fauzi
O Ataque contra a sede da produtora Porta dos Fundos, cometido por um comando integralista, em represália ao blasefemo e ofensivo "Especial de Natal' que retratava Jesus Cristo Nosso Senhor como bicha e Maria Santíssima como prostituta, deveria ter recebido a tipificação penal que um foguinho de merda, jogado na porta de uma fachada de vidro na madrugada deserta de um feriado merece: explosão ou incêndio. Crime leve, não dá nem multa, que dirá cadeia.
Como isso não era o bastante pra me manterem preso, o delegado passou a desenvolver a tese extravagante de que a intenção, na verdade, seria matar um vigia que ninguém sabia que existia e que deveria estar em casa celebrando o natal com a família, mas que, por azar, estava muito bem abrigado atrás do muro e da fachada de vidros blindados daquele prédio, trabalhando ali como vigia numa produtora de filminhos de gosto duvidoso, numa madrugada de véspera de natal.
Pronto. A solução tava na cara. Inventaram uma tentativa de Homicídio, que é crime grave. Aí já cabe pedir prisão pro otário do Eduardo Fauzi. O problema é que, a essa altura, eu já estava na Rússia.
De Homicídio Tentado que logo se mostrou impossível, tiveram que adaptar. Aí o sistema transformou a denúncia, que de Homicídio virou Terrorismo, crime federal, hediondo, muito mais grave que Homicídio Tentado.
Vai de 12 a 30 anos, sem as progressões naturais de regime, sem visita, cumprido em presídio federal, com RDD.
Isso foi o que foi planejado pelo sistema, pra me deixar apodrecendo atrás duma cela. Porque... eu recusei a assinar um acordo de delação premiada e nesse acordo, queriam que eu apontasse alguém ligado ao Planalto... ao Governo Bolsonaro.
Mais um outro pequeno problema. A essa altura eu estava já detido na Rússia e, pelo tratado de extradição assinado entre Rússia e Brasil, crimes políticos não são passíveis de extradição.
Então, se essa porra toda virou "terrorismo" eu já não podia ser extraditado porque rerrorismo é crime político.... se fuderam?
Não.... eles apostaram que eu não seria capaz de suportar a dureza de uma prisão para extremistas na Sibéria e que eu rapidinho pediria para ser extraditado, abrindo mão do direito de, como criminoso político, não ser extraditado, o que é previsto nesse mesmo Tratado de Extradição, assinado entre Brasil e Rússia. Resisti. Sobrevivi. Venci, sangrei, lutei e fiz sangrar.
E agora o último dos problemas DELES.
Na Rússia ninguém pode ficar mais do que 18 meses esperando para ser extraditado e, se esse prazo se esgotar, 18 meses, a Justiça russa te coloca em liberdade.
Eu aguentei a maldita masmorra siberiana, sempre esperando os malditos 18 meses que acabariam em 5 de março de 2022, pra finalmente poder ser posto em liberdade.
Aí, pra me extraditarem, eles tiveram que recuar do crime de Terrorismo, e agora eu já poderia ser extraditado para o Brasil, isso tinha que ser até o dia 5 de março de 2022 ou, o prazo de 18 meses acabaria, e eu seria posto em liberdade. Na Rússia.
2 semanas antes de eu ser posto em liberdade, em 16 de fevereiro de 2022, o então Presidente Jair Bolsonaro, com uma enorme comitiva, se encontrou com o Presidente da Federação Russa, Wladimir Putin, no Hotel Carlton de Moscou. O mais caro de toda a Rússia.
Através de contatos no Brasil minha esposa Ekaterina Alekseevna e meu filho de 7 anos conseguiram um passe para ir até a área reservada do Hotel Carlton, e um horário de 5 minutos, apenas para IMPLORAR ao secretariado do General Floriano Peixoto, que simplesmente atrasasse a vinda da Polícia Federal nessas 2 semanas que ainda faltavam, apenas para que esse prazo de 18 meses se esgotasse e para eu ser posto em liberdade... em 2 semanas.
Ele negou. Disse que, uma vez que o Crime de Terrorismo já havia sido desclassificado, eu já poderia ser extraditado como criminoso comum e a Polícia Federal cumpriria seu papel sem nenhum atraso.
Minha esposa lhe perguntou se o Presidente Bolsonaro sabia dessa decisão e ele disse que sim, e que não se importava. Que não queria ter a sua imagem ligada a um presidiário. Que não iriam ajudar em nada.
Minha esposa disse que o mundo dá voltas, e que se ele hoje pode ajudar a alguém inocente sair da cadeia, certamente Deus lhe ajudaria caso ele passasse por uma situação parecida... no futuro. Eles riram dela.
Ela só queria que a polícia federal fosse "liberada" para vir me buscar apenas depois do día 5 de março. Isso garantiria a minha liberdade em apenas 2 semanas.
Bolsonaro tinha a Polícia Federal no bolso. Não custava nada... e aí eu estaria livre. Não ajudaram, não ofereceram ajuda alguma e ainda algum escárnio.
E eu fui extraditado exatamente no dia 5 de março, 5 horas antes de ser posto em liberdade, na Rússia, sendo buscado oela Polícia Federal do Presidente Bolsonaro, no dia EXATO em que eu seria posto em liberdade, em algumas horas.
Apenas um dia de atraso, e eu teria sido posto em liberdade. E depois voltaria ao Brasil, sem algemas e em liberdade, com minha mulher e filho.
Hoje é o Presidente Bolsonaro quem vai preso. Que tentou pedir ajuda, acho que a uma embaixada, e não recebeu a ajuda que ele precisava para se manter em liberdade.
Ele vai preso pelos motivos errados. Eu não comemoro isso, nem celebro essa monstruosidade jurídica em que o Estado Brasileiro está se tornando... mas não tenho como ter piedade de um homem que não teve piedade de mim, de minha esposa e de um menino de 7 anos, perdido na neve, e que só queria o pai de volta.
Quem, podendo fazer um bem, não o faz, pratica um mal. E, certo como a morte é certa, pagará por isso.